Dependendo
do tipo de plantação,
uma colméia, com cerca de 60 000 abelhas,
faz pelo menos 1,5 milhão
de visitas coletivas às flores em busca da saborosa solução
de água, açúcar e sais minerais do néctar,
usado para produzir mel e enfrentar o inverno.
Nesse vai e vem,
elas levam outra riqueza: grãos de pólen, que as
flores depositam estrategicamente em pequenas hastes, chamadas
anteras, para lambuzar as visitantes. Carregadas com o precioso
produto, voam de flor em flor, espalhando os grãos da fecundidade.
As abelhas também se aproveitam desse alimento, rico em
proteínas, para abastecer suas larvas. Já os apicultores,
sobretudo na Europa, vendem o pólen em tabletes doces com
preço amargo para atletas ou chefes de cozinha, que o empregam
como tempero.
Mas não é só a busca frenética
do néctar ou do pólen que faz das abelhas melhores
polinizadoras do que borboletas, besouros ou moscas. Elas vencem
os rivais em eficiência por uma outra característica,
batizada pelos cientistas de "fidelidade alimentícia".
Enquanto a borboleta abandona facilmente um laranjal para se embrenhar
no mato atrás de flores silvestres, a abelha só deixa
a plantação quando não há mais flores
a visitar.
Pesquisas feitas na Unesp de Jaboticabal provaram que a produção
de laranjas pode crescer em 30% com ajuda dessas laboriosas trabalhadoras.
A experiência é simples. Na florada, em setembro, as
colméias são espalhadas pelo pomar. Metade das laranjeiras,
porém, é envolta por telas e, no final do verão,
com as árvores carregadas, as frutas são contadas para
medir a produtividade em cada lado. "Além do aumento
da quantidade, a qualidade das frutas melhora", acrescenta a
professora e pesquisadora Regina Helena, de Jaboticabal. As laranjas
da Unesp, por exemplo, ficaram 10% maiores e com mais 20% de vitamina
C graças às persistentes caçadoras de néctar,
que fecundam o máximo possível de óvulos na
flor e fazem com que o fruto se desenvolva por inteiro. Quando o
agente polinizador é o vento ou são insetos mais preguiçosos,
isso fica difícil.
Nos Estados Unidos, o recurso às
abelhas é tão intenso que, só na Califórnia,
existem cerca de 1,4 milhão de caixas como são chamadas
as colméias artificiais espalhadas entre laranjais e outras
culturas. "É mais do que toda a população
de Apis no Brasil", compara Helmuth Wiese, autor de vários
livros sobre o assunto e presidente da Confederação
dos Apicultores de Santa Catarina, o Estado com maior número
desses profissionais empenhados na polinização.
Em 1984, Wiese participou de uma experiência que elevou em
50% a produção de maçãs catarinense.
Desde então, houve uma adesão em massa à apicultura
e hoje existem mais de 50 000 colméias de aluguel só em
Fraiburgo. Os catarinenses detêm a liderança disparada
na cultura de maçãs, com 217 000 toneladas em 1991,
quase o triplo dos vizinhos gaúchos, responsáveis por
85 000 toneladas. "O problema dos agricultores de outros Estados é que
eles não percebem que é possível usar abelhas
sem risco", diz Wiese.
O risco a que ele se refere são as dolorosas picadas que
elas distribuem quando molestadas Texto retirado da revista "Superinteressante" setembro de
1992
|
|