Reportagem do Jornal "O Estado de
São Paulo", na coluna Vida e Meio Ambiente, por
Ricardo Westin.
sábado, 7 de julho de 2007, 9:28:39 AM | Online
O problema é grave. Em termos ambientais, as abelhas
são importantes polinizadores naturais
SÃO PAULO - Sem fazer alarde nem deixar pistas, abelhas
de diversas regiões do planeta estão desaparecendo.
Elas saem em busca de néctar e pólen e não
retornam mais às suas colméias. Esse misterioso
sumiço tem sido notado, nos últimos anos, nos Estados
Unidos, no Canadá, em países da Europa e até no
Brasil.
O problema é grave. Em termos ambientais, as abelhas
são importantes polinizadores naturais. Ao levar o
pólen de uma flor a outra, elas induzem a formação
de frutos e sementes. Ou seja, são protagonistas na
reprodução das plantas.
Em termos econômicos, esses insetos são os
mais tarimbados produtores de mel na natureza. Além
disso, são cada vez mais empregados na agricultura,
polinizando lavouras de abacate, maçã, laranja,
amêndoa e cenoura, por exemplo.
O sumiço das abelhas veio à tona no ano passado,
nos EUA e no Canadá. No último outono do Hemisfério
Norte, criadores que alugam enxames para agricultores se
assustaram com um desaparecimento acima da média.
Em poucos meses, o problema dizimou abelhas em metade dos
50 Estados americanos e em três províncias canadenses.
Apicultores chegaram a perder 90% de suas colméias.
Para uma melhor dimensão do estrago, o biólogo
americano Edward O. Wilson amplia o mundo dos insetos à escala
humana. “De certa maneira, é o Katrina da entomologia”,
comparou ele, que é professor da Universidade Harvard,
ao jornal Washington Post, citando o furacão que há dois
anos matou pelo menos 1,5 mil pessoas nos EUA.
Os americanos batizaram o esvaziamento das colméias
de desordem do colapso das colônias (CCD, na sigla
em inglês). As razões da alta mortalidade, porém,
continuam desconhecidas. Os cientistas estão correndo
atrás de uma resposta, mas ainda não conseguiram
passar das hipóteses. Talvez seja a intoxicação
por inseticidas - cada vez mais usados na agricultura -,
talvez a infecção por vírus e ácaros.
Diante do mistério, não se descarta nem mesmo
a radiação dos telefones celulares.
“Quando uma abelha melífera encontra algo interessante,
o grupo inteiro vai junto. É por isso que é tão
vulnerável, mais que uma abelha nativa”, explica
o biólogo americano David De Jong, doutor em entomologia
pela Universidade Cornell e professor de genética
na Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão
Preto.
Uma das dificuldades para apontar a origem da CCD é o
fato de as abelhas sem vida serem encontradas dispersas,
bem longe das colméias.
Nos EUA, o mundo dos insetos foi alçado a assunto
de política pública. Em abril, o FDA (a agência
responsável pelo controle de remédios e alimentos)
realizou um congresso em Washington para discutir o tema.
De Jong foi convidado para expor a situação
brasileira.
Até a senadora Hillary Clinton, aspirante à presidência,
vestiu a camisa dos apicultores. “Precisamos tomar
as ações necessárias para ajudar nossos
produtores de mel e agricultores e evitar que a situação
fique pior”, disse ela, que propôs mais verbas
para investigações.
A preocupação governamental não é à toa.
Por ano, a agricultura que depende da polinização
das abelhas - são mais de 90 tipos de alimento - injeta
na economia americana a considerável cifra de US$
14 bilhões (cerca de R$ 26,8 bilhões) por ano.
Saiba mais sobre o assunto na reportagem da revista Época
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